A entrevista de investigação é uma das técnicas mais utilizadas na investigação qualitativa em Portugal, especialmente nas áreas das ciências sociais, educação, saúde e psicologia. O seu objetivo não é apenas recolher dados, mas compreender a fundo como os participantes interpretam um fenómeno a partir das suas experiências e perspetivas pessoais.
Neste guia explicamos como preparar e realizar uma entrevista de investigação académica em Portugal, com exemplos úteis que te ajudarão no teu TFC, dissertação de mestrado ou tese de doutoramento.
O que é uma entrevista de investigação e porque é importante?
A entrevista de investigação é uma técnica qualitativa de recolha de dados, em que o investigador interage com uma ou mais pessoas para obter informação relevante sobre um determinado tema de estudo.
Ao contrário dos inquéritos ou da mera observação, a entrevista permite aceder a dados mais subjetivos, como emoções, crenças, significados e vivências.
Relevância na investigação qualitativa em Portugal:
- É flexível e permite explorar temas em profundidade.
- Dá voz ao participante (perspetiva emic), fundamental em estudos sociais e educativos.
- Gera dados ricos, detalhados e difíceis de quantificar com métodos estatísticos.
- É ideal para teses qualitativas na área da saúde, educação, psicologia, sociologia e antropologia.
- Suporta metodologias como a Grounded Theory, a fenomenologia ou o estudo de caso.
- É essencial para abordar temas sensíveis (ex.: luto, burnout, exclusão social, etc.).

Tipos de entrevistas utilizadas em investigação
1. Entrevista não estruturada
- Forma livre e aberta de diálogo.
- O entrevistador apenas orienta o tema.
- Boa para investigações exploratórias ou para estudar fenómenos pouco conhecidos.
2. Entrevista semi-estruturada
- Tem uma grelha de temas e perguntas abertas.
- Permite profundidade, sem perder o foco.
- É o formato mais comum em dissertações de mestrado e teses qualitativas em Portugal.
3. Entrevista estruturada
- Baseia-se num guião fixo, com perguntas fechadas.
- Útil para estudos comparativos ou mistos.
- Menos usada na investigação qualitativa pura.
| Tipo | Estrutura | Aplicação típica |
|---|---|---|
| Estruturada | Fixa e padronizada | Estudos quantitativos/inquéritos |
| Semi-estruturada | Flexível, com base em guião | Investigação qualitativa (teses, dissertações) |
| Não estruturada | Sem guião rígido | Estudos exploratórios, etnografia |
Como elaborar um guião de entrevista de investigação
Passo 1: Define o objetivo da entrevista
Baseia-te no teu objetivo geral de investigação e define claramente o que queres saber.
Exemplo: “Compreender como os professores do ensino secundário percecionam o burnout profissional.”
Passo 2: Escolhe o tipo de entrevista
- Semi-estruturada: a mais recomendada para teses e dissertações qualitativas.
- Estruturada: boa se quiseres obter dados comparáveis.
- Não estruturada: ideal para abordagens fenomenológicas ou antropológicas.
Passo 3: Cria a grelha de perguntas
- Entre 5 a 8 perguntas principais.
- Começa com perguntas introdutórias, depois vai aprofundando.
- As perguntas devem ser:
- Abertas
- Claras
- Neutras
- Focadas numa única ideia
❌ Exemplo a evitar: “Está satisfeito com o seu trabalho e porquê?”
✅ Melhor: “Pode descrever como é um dia típico de trabalho?”
Passo 4: Testa a entrevista
Faz um pré-teste com 2 ou 3 pessoas. Isto ajuda a perceber:
- Se as perguntas são claras;
- Se o tempo é adequado (entre 45 a 90 minutos);
- Se o participante se sente confortável.
Passo 5: Versão final
- Formata o documento com espaço para notas.
- Inclui um termo de consentimento informado, obrigatório nas universidades portuguesas (RGPD).
Como aplicar a entrevista em contexto real
- Apresenta-te e explica o objetivo da entrevista.
- Solicita e regista o consentimento do participante.
- Cria um ambiente de empatia e escuta ativa.
- Deixa o participante falar livremente sem o interromper.
- Faz perguntas complementares como:
- “Pode explicar melhor essa parte?”
- “Como se sentiu nessa situação?”
- Após a entrevista, escreve notas de campo com impressões subjetivas, linguagem corporal e detalhes emocionais.
Exemplo de guião de entrevista semi-estruturada
Tema da investigação: Impacto do burnout em professores do ensino secundário
- Pode contar-me um pouco sobre o seu percurso profissional como docente?
- Quais foram os primeiros sinais de cansaço emocional ou burnout?
- De que forma o burnout afetou a sua saúde e vida pessoal?
- Que fatores acredita que contribuíram para essa situação?
- Sentiu apoio por parte da escola ou dos colegas?
- Que mudanças gostaria de ver no sistema educativo para melhorar o bem-estar docente?
- O que aprendeu com esta experiência?
Encerramento: “Gostaria de acrescentar algo que não foi abordado?”
Perguntas frequentes
O que é uma entrevista de investigação?
É uma conversa planeada entre investigador e participante, usada para compreender experiências, crenças ou sentimentos.
Qual a diferença entre entrevistas estruturadas e não estruturadas?
As estruturadas seguem um guião rígido; as não estruturadas permitem maior liberdade e adaptação.
Porque se usam entrevistas em teses e dissertações?
Permitem obter dados profundos, compreensivos e subjetivos, muitas vezes impossíveis de captar com métodos estatísticos.
Se precisares de ajuda para elaborar uma entrevista de investigação adequada para o teu TFC, mestrado ou doutoramento, a equipa do Gabinete de Estudos está disponível para apoiar-te em todo o processo, desde o planeamento até à análise dos dados.


